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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O resgate da música indiana


Por NIDA NAJAR
 RANERI, Índia — Neste vilarejo a 640 km a sudoeste de Nova Déli, onde a eletricidade é escassa e as mulheres lavam a louça na areia para economizar água, Lakha Khan estava sentado no chão de um casebre de pedra, arrancando uma melodia animada de seu “sarangi”, um instrumento parecido com um violino.
Khan, 66, é um dos poucos tocadores de sarangi sindis entre os manganiares, uma casta de músicos hereditários muçulmanos que vivem neste Estado desértico do Rajastão. Ele toca durante horas a fio, normalmente apenas para as cabras que estejam passando diante da porta.
 Recentemente, porém, duas pessoas o estavam ouvindo: Ashutosh Sharma e Ankur Malhotra, agachados ao lado de seus equipamentos. Estes incluíam um misturador de cinco canais e dois gravadores analógicos.
 “Há uma exuberância, uma ausência de inibições, quando eles tocam em casa”, comentou Malhotra, aludindo aos manganiares, cuja música mistura melodias tradicionais com vocais marcantes.
 Sharma e Malhotra, ambos com 37 anos, querem preservar a música dos manganiares. Não existe registro escrito das canções destes, que são músicas devocionais ou histórias de nascimentos, mortes e amor. Os dois homens disseram que sua inspiração foi Alan Lomax, o musicólogo que, mais de meio século atrás, percorreu o sul dos Estados Unidos, gravando músicos de blues até então desconhecidos.
 Eles esperam preservar a música e levá-la à atenção de um público maior através de um selo musical pequeno e independente que criaram, Amarrass Records. Mas têm consciência de que a tentativa de popularizar a música dos manganiares é um empreendimento difícil na Índia, onde a maioria dos jovens prefere descarregar ringtones de Bollywood.
 Malhotra e Sharma não se deixam desanimar. Eles crescerem em Nova Déli, ouvindo música sufista e hindu. Quando ficaram mais velhos, voltaram-se ao rock ocidental, embora essa música fosse difícil de encontrar. O pai de Sharma, piloto da British Airways, lhe trazia discos do Grateful Dead e dos Rolling Stones que comprava em suas viagens aos EUA e ao Reino Unido.
 Mais tarde Sharma fundou uma agência de viagens em Nova Déli. Malhotra mudou-se para os EUA, obteve um MBA e criou uma empresa de educação. Mas os dois se ressentiam da ausência de música em suas vidas.
 Na primavera deste ano, eles passaram três dias na casa de Khan. “Quando ele se levanta de manhã com vontade de cantar, nós estamos juntos”, disse Malhotra. “Isso é algo que não acontece num estúdio.”
 Mais tarde, eles foram até o povoado de Hamira, a 160 km de distância, onde vive Sakar Khan, 76. Ele é mestre da “kamancha”, um instrumento de cordas antigo que é tocado com arco, algo característico dos manganiares. Sakar Khan já percorreu o mundo apresentando-se.
 Malhotra e Sharma financiaram seu projeto com lucros da agência de viagens de Sharma. Eles levantaram dinheiro para cobrir parte de seus custos de produção, menos de US$ 3.000, no Kickstarter, um web site de “crowd funding” (“vaquinha” virtual), e receberam US$ 30 mil de um dos orientadores de Malhotra na escola de administração.
 Roysten Abel, diretor do espetáculo teatral “Manganiyar Seduction”, apresentado em Nova York há dois anos, disse que Sharma e Malhotra precisam deixar a música mais contemporânea. “Só assim a Índia vai poder se internacionalizar”, opinou.
 Sharma e Malhotra disseram que, independente do quanto ouçam mestres musicais idosos, uma parte importante da tradição secular inevitavelmente se perderá. “Eles são os guardadores da tradição oral e também de sua própria história”, disse Malhotra. “Está tudo em suas cabeças. E cerca de 20% disso se perde em uma geração.”

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